Relatos e Viagens à China
Vivências, formação tradicional e aprofundamento nas artes marciais internas chinesas
Contexto Histórico das Viagens (1996 – 1999)
As primeiras viagens de Mestre Adriano d’Avila à China ocorreram em um período profundamente distinto do cenário atual. Entre os anos de 1996 e 1999, o país ainda mantinha uma postura consideravelmente mais restritiva à presença e ao acesso de estrangeiros, especialmente no que se refere à transmissão das artes marciais tradicionais e internas.
Além disso, o acesso à informação era extremamente limitado. Não existiam conteúdos organizados ou traduzidos para outros idiomas, tampouco materiais didáticos acessíveis a praticantes estrangeiros. A maior parte das informações estava disponível apenas em chinês, exigindo mediação direta, observação e convivência para a aprendizagem.
A internet ainda engatinhava no Brasil, sem mecanismos de busca eficientes, mapas digitais ou recursos de navegação. A localização de cidades, parques, academias e residências de mestres era feita por meio de mapas físicos, indicações verbais e deslocamentos longos, muitas vezes sem referências precisas. Não havia GPS ou ferramentas de orientação como as existentes atualmente.
O aprendizado não era mediado por cursos internacionais, certificações comerciais ou turismo cultural estruturado. O acesso aos ensinamentos ocorria por meio de confiança, respeito, constância e presença contínua, construídos ao longo do tempo.
Foi nesse contexto histórico, social e tecnológico que se deram as primeiras viagens de Mestre Adriano à China, tornando sua trajetória marcada não apenas pelo estudo técnico, mas pela capacidade de adaptação, persistência e construção de vínculos humanos em um período de grandes limitações e transição.
1ª Viagem – Novembro de 1996
A primeira viagem ocorreu após mais de 14 anos de prática nas artes marciais chinesas e mais de uma década de formação em Kung Fu, Tai Chi Chuan e Qi Gong no Brasil.
Diante da limitação de acesso à tradição do Tai Chi Chuan no país, Mestre Adriano desenvolveu um projeto pessoal para conhecer diretamente grandes referências mundiais da arte.
Durante cerca de 40 dias, participou de práticas em parques, aulas particulares, palestras universitárias e intercâmbios culturais, estabelecendo contatos decisivos para sua trajetória, entre eles o encontro com o Grão-Mestre Feng Yicun.
2ª Viagem – Julho de 1997
A segunda viagem foi marcada pela participação no Primeiro Campeonato Internacional da Família Yang e no Primeiro Seminário Internacional de Tai Chi Chuan.
Mestre Adriano foi o único brasileiro presente, representando o país ao lado de praticantes de diversas partes do mundo, especialmente dos Estados Unidos e da Europa.
Nesta ocasião, recebeu seu nome chinês: Feng Guo Dong — “aquele que vem de longe e é especial”, simbolizando reconhecimento, vínculo e pertencimento.
3ª Viagem – Março de 1999
Em sua terceira viagem, Mestre Adriano teve a rara oportunidade de conviver intensamente com seu mestre, sua família e seu círculo mais próximo.
Foi recebido em sua residência, compartilhando o cotidiano, as refeições e os treinamentos, experiência considerada de grande valor simbólico e tradicional.
Nessa estadia ocorreu o reconhecimento formal de discipulado, com registro na árvore genealógica da linhagem, entrega de carimbo com seu nome chinês e oficialização do vínculo mestre-discípulo.
4ª Viagem – Março de 2000
A quarta viagem foi dedicada ao aprofundamento no Ba Gua Zhang e ao fortalecimento dos laços com a família tradicional chinesa de seu mestre, incluindo discípulos antigos e novos praticantes.
Esse período consolidou a compreensão da arte marcial como vivência humana integrada à cultura e ao cotidiano.
5ª Viagem – Julho de 2002
A quinta viagem teve caráter especial, pois Mestre Adriano viajou acompanhado de uma aluna, proporcionando também a ela o contato direto com a tradição chinesa.
Os objetivos incluíam visitas a locais históricos, participação no Segundo Campeonato Internacional em Shanxi e a apresentação formal da aluna ao Grão-Mestre Feng Yicun.
A experiência reforçou o compromisso com a transmissão responsável do conhecimento e com a formação humana dos praticantes.
Após as Viagens
Após esse ciclo, Mestre Adriano optou por trazer a China até o Brasil, organizando eventos, seminários e longas estadias de mestres chineses no país.
O Grão-Mestre Feng Yicun esteve no Brasil por três ocasiões, permanecendo por períodos superiores a 60 dias, permitindo uma formação profunda, contínua e alinhada à tradição.
Essa decisão consolidou um trabalho sério, tradicional e comprometido com a preservação das artes marciais internas chinesas no Brasil e na América do Sul.